Não era para ser assim, mas precisamos ser realistas e dizer que isso acontece.
Donos do próprio negócio, que criaram suas empresas com o ímpeto de um desbravador, chegam a um determinado momento em que se sentem desmotivados com aquilo que eles mesmo criaram e se esforçaram tanto para ter.
Isso assola o empresário de uma forma mais grave justamente por sua condição de pessoa que está à frente do negócio e precisa manter sua postura firme e segura diante de tudo, porém internamente o que se passa é justamente o oposto.
E ele não tem com quem compartilhar esse incômodo e se sente solitário.
Algo internamente se movimenta e faz com que a pessoa comece a duvidar se aquilo é a coisa certa a se fazer.
Pode ser que o negócio já esteja indo mal há um tempo, mesmo com muito trabalho os resultados não vem;
Pode ser que o negócio esteja até indo bem e a pessoa já tenha alcançado um nível que trouxe certa estabilidade tanto na empresa quanto em sua vida pessoal;
Pode ser que os desafios para manter o negócio se tornaram muito maiores do que a capacidade que a pessoa julga ter para conseguir superar;
Pode ser que a pessoa já não reconheça o próprio negócio como seu, simplesmente perdeu a identificação;
Pode estar cansado de tanto trabalho;
Pode não aguentar mais desentendimentos entre sócios;
Os motivos são inúmeros, mas a situação acaba sendo sempre a mesma, o empresário fica desmotivado e começa se questionar se isso é mesmo a coisa certa a se dedicar.
Pois bem, vou compartilhar com você agora a experiência que eu tive a respeito disso tudo:
Há 12 anos atrás, minha sócia, eu e alguns investidores começamos um negócio.
No início os desafios eram bem grandes pois todos os meses já começávamos com as contas fixas para pagar e não tínhamos a receita para pagar tudo. Tínhamos pouco dinheiro para investir e um fluxo negativo todo mês e se não fizéssemos algo de forma urgente, o negócio iria quebrar.
Nessa época, tínhamos uma motivação bem clara: a de SOBREVIVER, tanto no negócio, quanto na vida pessoal (que dependia do negócio).
Os desafios que se apresentavam precisavam ser resolvidos.
Não sei se você conhece a história do tubarão que vou citar abaixo, mas nesse primeiro período dentro da a empresa, eu vivia com o tubarão dentro do tanque.
História do Tubarão
“Um empresário japonês estava tendo problemas com o transporte de peixes vivos para o mercado. Apesar de todos os esforços, os peixes sempre chegavam mortos ao destino. Ele tentou várias soluções, como aumentar o oxigênio na água e reduzir a quantidade de peixes no tanque, mas nada funcionava.
Então, um dia, um de seus funcionários sugeriu colocar um tubarão dentro do tanque junto com os peixes. O empresário, apesar de cético, decidiu tentar. Para sua surpresa, quando o caminhão chegou ao mercado, todos os peixes estavam vivos.
O que aconteceu foi que a presença do tubarão no tanque fez com que os peixes nadassem constantemente para fugir dele. Esse movimento contínuo manteve os peixes ativos e saudáveis durante a viagem, evitando que morressem de estresse ou falta de oxigênio.”
Assim como na história do tubarão, a motivação de ter que fazer algo dar certo e não ter um plano B fez com que nos mantivéssemos vivos e que trabalhássemos muito para que o negócio não morresse antes de completar seu primeiro ano de vida.
A reflexão que faço aqui olhando para o passado é que de alguma forma esses momentos difíceis nos ajudaram a tomar as decisões corretas e agir rapidamente para conseguirmos manter o negócio. Como não víamos como opção a morte do negócio, nos esforçamos bastante para conseguir nos manter vivos no negócio.
As dificuldades contribuíram com nosso crescimento.
Nossa motivação era SOBREVIVER.
Ao passar dos anos, as primeiras dificuldades foram amenizadas e já conseguiamos pensar em outras coisas para que pudéssemos melhorar o negócio e nessa fase também já não estávamos tão desesperados na situação financeira pessoal, já que tinhamos um valor de pró-labore mensal que sabíamos que a empresa conseguiria pagar todos os meses.
A motivação então passou de conseguir sobreviver para melhorar o negócio.
Não sei se você conhece a pirâmide de Maslow, que é uma forma de mostrar a hierarquia de necessidades do ser humano e sua motivação. Ou seja, uma vez atendida a camada mais baixa, a busca mais intensa do ser humano vai se a de atender suas necessidades da camada superior.
Hierarquia de necessidades e motivações
Essa é a pirâmide de Maslow:

Olhando para isso e trazendo para a realidade que vivemos no início do negócio e em nossas vidas pessoais, éramos motivados principalmente na escala FISIOLÓGICA e de SEGURANÇA, onde precisávamos prover recursos para que o negócio pudesse ter o mínimo de condições de se manter vivo.
Nosso foco era manter o negócio o mais enxuto possível para que conseguíssemos nos manter com pouco faturamento, dessa forma conseguiríamos manter o negócio vivo por mais algum tempo e também dariamos segurança àquelas pessoas que trabalhavam conosco e também para nós mesmos no âmbito pessoal.
À medida que o tempo foi passando, a empresa foi crescendo e a preocupação não era mais se a empresa iria sobreviver ou não.
Passamos a nos envolver na gestão do negócio para melhorar os resultados enquanto aumentávamos as equipes, a estrutura física do negócio e também os processos internos.
Nessa fase, nossa motivação era a de conseguir MELHORAR AS CONDIÇÕES da empresa: desde coisas pequenas como café, a disposição das salas, a interação das equipes, o sistema ERP que trabalhávamos, isso para citar algumas coisas que focamos na época.
Fazendo a relação com a pirâmide de Maslow, nessa época nossa motivação estava já mais na camada social com algo da camada de segurança também.
Estávamos focados em criar um bom ambiente interno para todos, tanto fisicamente quanto na na cultura da empresa.
O tempo foi passando e depois dessa fase a empresa conseguiu se estabelecer como uma das líderes no mercado dentro da sua área de atuação. As coisas ficaram um pouco mais fáceis se compararmos ao início, quando a necessidade era de sobreviver, mas ainda assim existiam muitos desafios grandes para serem superados.
Com o desenvolvimento do negócio, com muitas coisas já funcionando na rotina diária, com uma boa previsibilidade do resultado mensal que conseguiamos, a motivação passou para a esfera da ESTIMA e REALIZAÇÃO PESSOAL.
Foi nessa fase que algumas coisas que nunca tinham incomodado (mas já estavam lá) começaram a aparecer.
Com tudo indo relativamente bem no negócio, começamos a nos questionar sobre a REALIZAÇÃO PESSOAL de cada um.
Não é novidade que cada sócio tem um estilo de trabalho, uma forma de liderar, uma forma de ver as coisas e também um projeto de vida pessoal.
Isso sempre existiu, mas foi nessa fase da empresa que começou a se pensar na realização pessoal como algo importante para cada um.
Como o estilo de cada um, os desejos e aspirações não são os mesmos, a ideia de uma possível solução para resolver tudo isso começou a se formar.
Após algum tempo de reflexão e conversas, a solução mais lógica parecia ser a de vender o negócio pois conseguiria atender a diversos pontos que contribuiriam para o negócio e também para a realização pessoal de cada um:
- Como o negócio estava indo bem e era estável, havia uma boa possibilidade de vendê-lo
- Ao vender o negócio, cada um dos sócios poderia ter o valor da sua parte e poder investir nos seus projetos
- O negócio poderia crescer ainda mais com um novo comprador
No nosso caso isso acabou se tornando a opção que escolhemos e foi concretizada após algum tempo com sucesso!
Conseguimos subir degrau por degrau das motivações e chegamos a uma solução que foi adequada para os sócios e para o negócio.
Qual a saída?
Apesar de ter compartilhado minha história, não estou dizendo que se você está desmotivado com seu negócio a solução certa seria a de vender o negócio.
Essa pode ser uma solução, mas você precisa refletir sobre o assunto.
Primeiramente, qual é sua motivação para continuar no seu negócio?
é a de sobreviver?
é a de escalar?
é a de ficar milionário? – ou seja de ter status/reconhecimento
é a de ter mais tempo livre?
é a de conseguir realizar seu projeto pessoal?
é a de se livrar de discussões?
Ter clareza dessa motivação vai te ajudar a ter clareza da solução.
Para cada uma das motivações existe uma alternativa e uma forma de resolvê-la. (podemos tratar disso em outro texto)
Caso sua motivação te leve a pensar como a gente pensou que a solução seria a de vender o negócio, posso te ajudar a entender como funciona a ideia de vender o negócio até a concretização da venda.

